4 de novembro de 2019

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por: ludens

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Categorias: Novidades de Tratamento

Trabalho como propósito de vida

A profissionalização do adulto com problemas psiquiátricos é uma realidade dentro do Núcleo de Oficinas e Trabalho (NOT), uma parceria entre a Associação Cornélia Vlieg e o Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira, localizado no Distrito de Sousas, em Campinas.

Aproximadamente 300 pessoas com transtornos mentais, dependentes químicos e em situação de rua são atendidas no Núcleo que promove a inclusão social pelo trabalho e geração de renda. “Esse público não encontra oportunidade no mercado formal de trabalho, vive em situação de vulnerabilidade e à margem do convívio social. É preciso resgatar o processo de aprendizado em espaço que possibilite a expressão da subjetividade e estimule as relações interpessoais”, afirma Cleusa Ogera Cayres, Coordenadora das Oficinas de Trabalho e Geração de Renda do Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira, que reintegra pessoas à sociedade.

Existe uma preocupação em promover a participação democrática dos atendidos em todas as etapas do processo, como uma “cooperativa”. Todos atuam na produção, venda e remuneração dos produtos e também recebem uma “bolsa oficina” por isso, como resultado do trabalho.

O valor gerado é dividido entre os oficineiros, de acordo com a avaliação de desempenho de cada um, considerando-se critérios como assiduidade, pontualidade, responsabilidade, iniciativa, criatividade, relação com o grupo e desempenho na tarefa específica. “Essa avaliação é realizada de modo coletivo, dentro dos conceitos e princípios do Cooperativismo e da Economia Solidária”, explica Cleusa.

 

As oficinas

O Núcleo oferece atividades em oficinas específicas como formas alternativas de trabalho. Conheça quais são elas:

Oficina Gráfica – em média 21 usuários participam das atividades de confecção de agendas, índices telefônicos, cadernos, blocos de anotações revestidos com papel artesanal, cartões de visita, convites em geral, embalagens e produtos personalizados.

Oficina de Papel Artesanal – 20 usuários participam da atividade de reciclagem de papel e produção de papel artesanal. Parte da produção é comercializada para a oficina gráfica. Também produz papel a partir da fibra de bananeira e a transforma em objetos de decoração como flores artesanais e porta guardanapo. Na linha de produção, dispõe ainda da confecção de papel semente.

Oficina de Vitral – desenvolve produtos artesanais em vidro, luminárias, tampo de mesas e peças decorativas, como caixas, potes, placa com numeração de casas, suporte para velas, lustres, arandelas, lampião e confeccionam vitrais para portas, janelas, biombos, divisórias, revestimento de potes entre outros. Participam em média 32 oficineiros.

Oficina de Mosaico – 22 oficineiros participam de atividades diárias na montagem de mosaicos em pastilhas diversas. A linha de montagem inclui tampos para mesas, aparadores e outros objetos para decoração que podem ser feitos sob encomenda.

Oficina de Marcenaria – desenvolve atividades artesanais em madeira, marchetaria em cipó, bambu e mosaico de madeira. Conta com 19 oficineiros que são responsáveis por desenvolver atividades de corte, esquadria, colagem, lixamento, aplicação de cipó e bambu, acabamento em verniz para a confecção de peças decorativas, além de móveis e peças personalizadas.

Oficina de Serralheria – desenvolve produtos artesanais em ferro. Atualmente conta com 20 oficineiros que são responsáveis por desenvolver atividades de corte, dobra, lima, lixa, solda e pintura para a confecção de peças decorativas. Produz, ainda, portões, grades, pés de mesa, cadeiras, bancos e banquetas, fruteiras, cabideiros, jardineiras e peças personalizadas. Mantém parceria com as oficinas de Mosaico, Marcenaria, Vitral Plano, Vitral Artesanal e Ladrilho, fornecendo os itens de ferro necessários para a composição dos produtos.

Oficina de Doceria Artesanal – desenvolve produção de doces artesanais variados, entre eles pudins, mousses, brigadeiros simples e recheados, beijinhos simples e com nutella, cajuzinhos, pães de mel, bolos simples e recheados e bolachinhas.

Oficina Agrícola – 55 oficineiros trabalham na produção de hortaliças, verduras, legumes e também na prestação de serviços de limpeza de chácaras, terrenos e manutenção de jardins, mediante contrato com clientes. Atualmente, dividem-se em seis grupos que cuidam da horta, do viveiro de jabuticabas e atividades de jardinagem que são realizadas na comunidade.

Oficina de Culinária e Nutrição –20 oficineiros produzem refeições transportadas a granel e marmitex, e também refeições em um restaurante próprio. Prepara doces, salgados, bolos e sucos para uma cantina administrada pela oficina.

Oficina Culinária e Eventos – oferece 22 vagas e produz pães, doces, bolos e salgados, organiza e faz a montagem de eventos como coquetéis e coffee breaks.

Oficina Ladrilho Hidráulico – oferece 18 vagas e desenvolve atividade de montagem de ladrilhos artesanais, peças de ladrilho hidráulico, que é um material cimentício produzido de forma artesanal, prensado, que pode ser utilizado para revestimento de calçadas, pisos ou decoração.

Oficina de Costura – oferece atividades artesanais de costura, bordado, tecelagem e patchwork.

 

Desafios a serem vencidos

A profissionalização desse público tem muitos desafios, segunda a coordenadora do Núcleo. Um número significativo já teve experiências anteriores e adoeceram no exercício do oficio.

Em alguns casos, eles relacionam o adoecimento com o trabalho e procuram outro oficio para recomeçar. Outra parcela escolhe atividade similar a já desenvolvida anteriormente. “Os principais desafios estão relacionados às perdas causadas pela doença, como baixo pragmatismo, dificuldades nas relações interpessoais e aos efeitos colaterais das medicações”, conta Cleusa. “Recebemos pessoas que tem desejo e necessidade de trabalhar, mas não conseguem inclusão no mercado formal de trabalho, são encaminhadas pela rede de Assistência Social e de Saúde do município de Campinas e sua idade não é um fator de exclusão no serviço. Percebemos que os mais jovens têm mais perspectivas de inclusão, principalmente pelo tempo da doença, que geralmente é mais recente, e também tem um maior desejo por capacitação profissional”, finaliza a coordenadora.