26 de junho de 2019

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por: ludens

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Categorias: Novidades de Tratamento

Seu filho já recusou comida hoje?

 

Por Valéria Quércia

 

O horário das refeições pode ser angustiante para muitos pais, afinal, a recusa alimentar de algumas crianças pode extrapolar o limite aceitável. Aí é hora de buscar ajuda profissional.

A terapeuta ocupacional da Ludens, Valéria Quércia, tira algumas dúvidas com relação ao assunto na entrevista abaixo. Vale a leitura.

 

  1. O que é recusa alimentar e quais suas origens?

Muitos pensam na recusa alimentar como um simples comportamento da criança, mas sabemos que o comportamento sempre tem uma razão e ele pode ser uma pista para entendermos uma criança, pois o comportamento também pode ser visto como uma forma de comunicação. Se conseguirmos entender porque determinada criança recusa certos tipos de alimentos podemos tomar as providências necessárias para que ela aceite novas experiências e consiga se alimentar de forma mais saudável.

A recusa alimentar pode ter várias origens. Desde problemas fisiológicos como desconfortos gastrointestinais, alergias alimentares, problemas anatômicos (que afetam a postura e/ou estruturas orais, causando dificuldades para mastigar, engolir), dentição, dificuldades respiratórias ou cardíacas – esses problemas acabam causando experiências ruins com a alimentação e, às vezes, mesmo depois de resolvidos, fazem com que a criança se recuse a comer pela lembrança desagradável (principalmente, se forem forçadas a comer) e pelo medo de terem que passar pelo desconforto ou dor novamente. Ou seja, a origem do problema passa a ser a experiência ruim do passado, que às vezes pode estar relacionada com traumas vividos durante os momentos da alimentação. Outra origem da recusa alimentar pode estar relacionada com uma disfunção do sistema sensorial da criança. Essa disfunção não está relacionada apenas ao sabor e/ou cheiro dos alimentos, mas também às texturas, temperaturas, aspectos visuais, incluindo as cores dos alimentos. Uma criança com disfunção sensorial pode apresentar uma sensibilidade aumentada quanto ao cheiro, gosto, textura ou temperatura dos alimentos, por exemplo, como pode também não conseguir sentir direito as diferenças entre um alimento ou outro, dentre outras características.

Essas dificuldades das crianças irão resultar em comportamentos inadequados na hora das refeições, que precisam ser analisados por profissionais competentes para que as causas possam ser identificadas e tratadas adequadamente. Dizer que uma criança não come por “culpa da mãe” só agrava um problema que precisa ser resolvido o mais precocemente possível.

Os hábitos familiares de uma criança que apresenta recusa alimentar só irão influenciar na mudança de comportamento quando as causas forem identificadas e quando as orientações forem devidamente passadas pelos profissionais que estejam acompanhando a evolução.

 

  1. A partir de que idade costuma aparecer nas crianças? Ela acontece com adultos também?

Os problemas com a recusa alimentar começam a aparecer, geralmente, desde as primeiras experiências. Às vezes, já na amamentação. Em outros casos, quando outros alimentos começam a ser introduzidos; ou repentinamente, após a criança já estar habituada a uma boa variedade de alimentos. Sempre irá depender muito da causa da recusa, mas quando queremos entender o problema precisamos investigar todo o histórico, desde o nascimento.

Nos adultos, também podem aparecer problemas de recusa alimentar e as causas também são diversas. Algumas pessoas já devem ter passado pela experiência de sentir-se mal após consumirem algum alimento e não quererem mais comê-lo ou terem sofrido algum trauma durante uma refeição e a lembrança causa desgosto até pelo cheiro. Ou tornam-se alérgicos por determinados ingredientes e quando pensam nas consequências, o prazer do alimento desaparece. Mas, é interessante também sabermos que a quantidade de glândulas que temos na língua responsáveis pelo paladar diminui ao longo da vida e, portanto, à medida que ficamos mais velhos vamos alterando nossas preferências alimentares.

 

  1. Quais são os alimentos mais recusados pelas crianças?

Os bebês nascem com uma preferência pelos sabores doces, o que os leva a gostar do leite do peito que é levemente adocicado. Depois, eles aprendem a gostar de outros três sabores: salgado, azedo e umami (palavra de origem japonesa que representa o gosto do glutamato, substância que equilibra o gosto e harmoniza a mistura entre vários sabores e é encontrada no leite materno, peixescrustáceos, algumas carnesalguns legumes, dentre outros). Quanto mais sabores diferentes forem oferecidos nessa fase inicial, mais os bebês ficam abertos a experimentar novos sabores (considerando bebês que não apresentam problemas acima relatados) e é nessa fase também, que os sabores e preferências alimentares vão sendo definidos de acordo com a cultura do local onde vivem.

O sabor mais difícil de ser aceito é o amargo porque eles são associados à toxicidade (geralmente, plantas venenosas possuem sabor amargo e nossos ancestrais reconheciam se os alimentos encontrados na natureza podiam ou não ser ingeridos através do sabor e, portanto, evitavam o amargo).

Portanto, resumidamente podemos classificar as preferências das crianças da seguinte forma:

– Alimentos doces que são aceitos naturalmente. Ex.: algumas frutas e legumes, biscoitos, bolos, chocolate.

– Alimentos que aprendem facilmente a gostar (salgado, azedo e umami). Ex.: batatas fritas e salgadinhos, iogurtes, queijo fresco, peixe, tomate, carne, mistura desses alimentos, outros queijos.

– Alimentos amargos que demoram mais para serem aceitos. Ex.: repolho, brócolis, chocolates amargos.

As texturas também são introduzidas progressivamente porque os bebês aprendem a lidar com elas pouco a pouco e começam com o líquido, passam pela refeição batida, depois amassada, depois desfiadas ou em pequenos pedaços.

 

  1. O que a recusa pode afetar em termos de saúde (existem substituições possíveis?)

A recusa alimentar pode ocasionar falta de nutrientes que são necessários para um bom desenvolvimento da criança. Geralmente, crianças que passam por esse problema apresentam peso e altura menores do que o esperado para sua faixa etária e não possuem energia e tônus muscular adequados para realização de atividades diárias. Mas também temos crianças que ficam acima do peso ideal e apresentam problemas de alergias e cansaço, dentre outros, porque consomem excessivamente determinados alimentos devido à seletividade, e acabam tendo excesso de alguns nutrientes.

Essas crianças precisam ser acompanhadas por médicos e nutricionistas para que sejam feitos exames periódicos que identifiquem a carência ou o excesso de nutrientes e possam receitar medicamentos ou suplementos para tentar equilibrar seu organismo.

O nutricionista também consegue sugerir cardápios mais adequados, respeitando as preferências de cada um.

 

  1. Existem tratamentos para a recusa alimentar?

Vários profissionais podem ajudar uma criança que passa por esse problema: psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, nutricionistas, pediatras. O mais importante é detectar a causa do problema para que ele possa ser tratado adequadamente. Muitas vezes, serão necessários tratamentos em conjunto com dois ou mais profissionais e não existe tempo determinado para que o problema seja solucionado. Sempre dependerá da resposta que a criança dará aos tratamentos e também da colaboração dos pais em seguir as orientações que forem sendo passadas, pois vários fatores são analisados e as mudanças sempre serão feitas sutilmente, respeitando a tolerância de cada criança. O importante é ter paciência, dedicação e perseverança para que os resultados sejam alcançados.

 

  1. Após tratada, a recusa alimentar não volta mais?

Quando a criança volta ou começa a sentir prazer na hora das refeições e se torna apta a experimentar novos sabores e novas experiências, geralmente ela passa a se alimentar adequadamente e não apresenta mais problemas de recusa. Quando a causa é tratada, ela não costuma se repetir, mas devemos considerar que ao longo da vida podem surgir outros problemas que poderão ocasionar novamente a dificuldade com a alimentação.