7 de fevereiro de 2019

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por: ludens

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Categorias: Novidades de Tratamento

Minha experiência com o TDC

 

Artigo escrito por Samara Costa, terapeuta ocupacional da Ludens

 

Crianças consideradas “desajeitadas”, com dificuldades para realizar atividades que exigem habilidades motoras, devem ser observadas com cautela, pois podem apresentar Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação (TDC). O TDC, também conhecido como Dispraxia, é uma condição que impacta negativamente a participação da criança em ambientes como casa e escola, além de causar implicações secundárias, como baixa tolerância à frustração e baixa autoestima.

 

Muitas destas implicações se devem ao pouco conhecimento que as pessoas têm sobre o transtorno, já que as dificuldades são mais sutis que outros diagnósticos, o que impede a identificação precoce e o tratamento adequado. Além disso, os pais dessas crianças percebem que há dificuldades, mas não conseguem entender com clareza essa condição e por isso não sabem como ajudar os filhos, confrontando-se com o dilema de fazer atividades por eles ao invés de estimular sua independência.

 

No meu mestrado, tive a oportunidade de investigar a experiência de crianças com TDC e seus pais/cuidadores com a Cognitive Orientation to Daily Occupational Performance ApproachTM (CO-OP), uma abordagem de tratamento criada por terapeutas ocupacionais canadenses que tem como foco a resolução de problemas e o uso de estratégias cognitivas e descoberta guiada para aquisição de habilidades motoras que a criança necessita ou deseja dominar. A sigla “CO-OP” tem como intuito destacar o caráter de cooperação entre terapeuta e cliente (paciente) durante a intervenção, visto que a abordagem abraça a filosofia da prática centrada nele. As crianças são encorajadas a estabelecer as metas de intervenção que tenham significado para elas, o que facilita o engajamento e a motivação durante o tratamento. Além disso, os pais/cuidadores participam ativamente das sessões para aprender a incorporar as estratégias cognitivas no dia a dia, reforçando e ampliando o que foi aprendido na terapia.

 

No Brasil, a CO-OP ainda é pouco utilizada na prática clínica devido ao desconhecimento por parte de terapeutas ocupacionais. Mas algumas pesquisadoras começaram a investigar o uso dessa abordagem com crianças brasileiras. Após a intervenção com o protocolo da CO-OP, os participantes compartilharam suas experiências em grupos focais e os relatos demonstraram que as mudanças aconteceram tanto nas crianças quanto em seus pais/cuidadores. O envolvimento ativo dos pais/cuidadores na terapia fez com que eles reconhecessem as dificuldades dos filhos e aprendessem a lidar com elas. Como antes não compreendiam essas dificuldades, acabavam fazendo algumas atividades pela criança, reforçando a dependência e os sentimentos de frustração e baixa autoestima.

 

Reconhecendo o impacto do TDC, os pais/cuidadores mudaram a forma de lidar com os filhos, sendo mais pacientes, dando oportunidades de aprendizado e respeitando o tempo da criança para execução das atividades. As crianças, por sua vez, conseguiram melhorar o desempenho em atividades motoras em um curto período de tempo, devido a elementos essenciais da abordagem, como a motivação resultante da escolha das próprias metas e o uso das estratégias cognitivas. A percepção dos resultados mudou o senso de competência da criança, que passou a ter ainda mais motivação durante a terapia, além de iniciativa, confiança e persistência frente aos novos desafios.

 

Um grande diferencial do estudo foi incluir as crianças como participantes em pesquisa, visto que tradicionalmente elas não são incluídas como parceiras e a maioria dos estudos são “sobre elas” e não “com elas”. Neste estudo, constatou-se que utilizando recursos adequados para a coleta de dados, é possível obter de crianças informações com riqueza de conteúdo, que contribuíram para melhorar a compreensão sobre o processo de intervenção. Dessa forma, a centralidade na criança deve ser cada vez mais incentivada tanto na prática clínica quanto na pesquisa.