30 de novembro de 2018

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por: ludens

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Categorias: Novidades de Tratamento

Entrevista exclusiva: prematuridade

 

No início do mês o blog publicou a matéria “Porque de pequenos, eles só têm o tamanho”, abrindo o Novembro Roxo de conscientização sobre a prematuridade.

 

E para fechar esse ciclo, uma entrevista sobre o tema com o pediatra neonatologista Antonio Erasmo Albertin Teixeira, coordenador da UTI neonatal do Hospital Celso Pierro (PUC Campinas). Confira.

 

 

1- Com quanto tempo um bebê é considerado prematuro?

 

A duração da gestação é medida a partir do primeiro dia do último período menstrual normal. A idade gestacional é expressa em semanas. Portanto:

 

– Pré-termo: menos de 37 semanas completas de gestação (menores de 30 semanas são considerados como pré-termo extremo).

Termo: de 37 semanas a menos de 42 semanas completas de gestação.

Pós-termo: 42 semanas completas ou mais de gestação.

 

 

2- Quais os riscos que eles correm quando não nascem a termo?

 

Devemos lembrar que o pré-termo tem todos os órgãos e sistemas prematuros, então, quanto menor a idade gestacional, maiores os riscos de complicações, dentre elas: imaturidade pulmonar devido à deficiência surfactante, conhecida como doença membrana hialina, o que requer extremo cuidado no manejo do suporte ventilatório, podendo levar a complicações pulmonares crônicas, conhecidas como bronco displasia pulmonar do recém-nascido; encefalopatia hipóxico isquêmica;  hemorragias intracranianas; retinopatia da prematuridade, podendo, em alguns casos, levar a cegueira; enterocolite necrosante; infecções congênitas ou adquiridas durante permanência em UTI; doença osteometabólica, podendo levar a fraturas espontâneas; anemia multifatorial, dentre inúmeras outras.

 

 

3- Quais os principais cuidados que um bebê prematuro deve receber?

 

Os cuidados para RN prematuro devem ser realizados por equipe multiprofissional capacitada que deve: promover nutrição adequada, seja parenteral ou enteral, sendo que esta última se destaca o leite materno, ter cuidados na manutenção da temperatura corpórea, evitando hipotermia, dar atenção aos cuidados preconizados para evitar risco de infecção, oferecer suporte ventilatório adequado a cada caso, iniciar precocemente, quando possível, o aleitamento materno, oferecer atenção aos pais por meio de acompanhamento com psicólogos, assistentes sociais, etc.

 

Cada prematuro é individualizado, ou seja, cada um tem um conjunto de ações específicas para a gravidade e riscos.

 

 

4- Existe forma de evitar/prevenir o parto prematuro? Em quais casos?

 

Sem dúvida alguma, o principal meio para reduzir os nascimentos prematuros é o pré-natal adequado, com início precoce, individualizando cada gestante, identificando precocemente as gestações consideradas de risco. A conscientização das gestantes para que realizem pré-natal adequado, realizando todas as consultas e exames.

 

Outro ponto importante é a não realização de cesáreas eletivas antes da 39ª semana de gestação completa, exceto para aquelas com indicações específicas. O exame ultrassom tem uma margem de erro de 1 a 2 semanas, então um bebê de 37 semanas, quando utilizada a idade do ultrassom, pode nascer com idade real de 35 a 36 semanas, o que aumenta e muito o risco de necessidade de UTI.

 

Mesmo em idade adequada, o parto cesariana aumenta o risco do bebê necessitar internação em UTI e ventilação mecânica. A Organização Mundial da Saúde afirma que são aceitáveis taxas de cesariana de até 15% nos sistemas de saúde, mas 52% dos nascimentos no Brasil são por esse meio e na rede dos planos de saúde essa taxa chega a 84%.

 

 

5- Os hospitais no Brasil estão preparados para atender prematuros?

 

Nem todos os hospitais estão preparados para atender prematuros. Estes devem nascer em hospitais que possuem unidade de tratamento intensivo neonatal capacitada. Na região de Campinas, contamos com hospitais públicos de extrema excelência para o tratamento de prematuros como Maternidade de Campinas, CAISM, Hospital Estadual de Sumaré, Hospital Celso Pierro e alguns da rede particular.

 

 

6- Quais os principais erros cometidos com bebês prematuros?

 

Dificilmente, em UTI neonatal capacitada, erros são cometidos. Às vezes um desfecho desfavorável é em decorrência da evolução de cada indivíduo. O principal erro se dá após a alta, não tratando o prematuro como tal, não realizando o seguimento adequado proposto na alta.

 

 

7- A prematuridade ainda é desconhecida? Se sim, por que?

 

Não é desconhecida, mas é subestimada, principalmente pela população.  As gestantes não são preparadas para o nascimento prematuro, não recebem informações no pré-natal e consideram muitas vezes como uma rotina.

 

 

8- A família toda passa por uma fase desgastante no período neonatal e precisa de acolhimento. Qual a melhor forma de lidar com pais de prematuros?

 

Com a verdade. Nunca minimizar riscos, sempre relatar a real situação, com palavras de conforto, procurando atentar ao que os pais entendem do processo. Trazer a linguagem médica para a linguagem que os pais consigam entender.

 

Como trabalhamos com equipes multiprofissionais, todos, na maioria dos serviços, recebem atendimento psicológico, social, etc. A humanização ao atendimento, através do acesso livre dos pais, permanência junto ao recém-nascido na UTI, contato pele a pele, etc é muito importante.  O acompanhamento pós alta também, preferencialmente com pediatra especializado no manejo de prematuros, pois até os 2 anos de idade estes serão conduzidos conforme sua idade gestacional corrigida. Acompanhamento com especialidades quando indicadas, por exemplo, manter o acompanhamento com fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e outros profissionais para que possa ser estimulado de forma adequada.