26 de outubro de 2018

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por: ludens

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Categorias: Novidades de Tratamento

A realidade da inclusão escolar no Brasil

 

Um panorama da educação inclusiva no país a partir do conhecimento e da vivência da pedagoga e professora de educação especial da rede pública de Campinas, Beatriz Poker, que há 37 anos atua na área.

 

 

Sou e serei sempre a favor da criança na escola. Aprendendo e ensinando. Ninguém é melhor ou sabe mais do que o outro.” Beatriz Poker

 

 

Como é feita hoje a inclusão da criança que possui alguma deficiência no Brasil?

 

R: A inclusão é garantida pela Lei n. 13146/2015, conhecida como LBI (Lei Brasileira de Inclusão) e que dispõe sobre a acessibilidade, educação e trabalho às pessoas com deficiência. Ela torna obrigatório o acolhimento desses alunos na rede de ensino regular em todas as escolas (públicas e particulares) e também as adaptações que sejam necessárias à sua permanência.

 

 

Essa forma é a mais adequada? Se não, qual o modelo ideal, na sua opinião?

 

R: Acredito que as leis nos auxiliem muito no que diz respeito ao ingresso às escolas e aos cuidados necessários à permanência e acesso aos locais dentro da unidade, como, por exemplo as adaptações arquitetônicas necessárias para um cadeirante, a presença de cuidador (quando o aluno não tem independência suficiente para alimentar-se, fazer sua higiene, etc), o intérprete de LIBRAS (para os surdos), e outros recursos afins. Porém, isso não garante a qualidade do ensino nem a permanência, no sentido de o aluno seguir seus estudos.

 

Para termos sucesso no aprendizado e na sequência nos estudos, precisaríamos, principalmente na rede pública de ensino, de salas de aula com número reduzido de alunos para que o professor possa dedicar-se ao que precisa da educação especial de forma individual e de acordo com suas necessidades especificas. Atualmente, as salas de aula têm de 30 a 35 alunos, muitos com problemas de aprendizagem. Faltam pessoas qualificadas para acompanhar o professor, falta recurso humano. Muitas vezes o professor atua sozinho em sala e tem que dar conta dos problemas de aprendizagem, do aluno com deficiência e de tudo o mais que surge da interação entre esses fatores, sem contar com o despreparo do próprio professor.

 

Outra questão importante é o uso dos recursos tecnológicos (tablets, computadores com amplo acesso à internet, entre outros) para que planejamentos de aulas expositivas e interativas se adequassem melhor, uma vez que a utilização de recursos visuais e pesquisas facilita o aprendizado de todos. Muitas aulas ainda se resumem a lousa, giz e livro ou apostila didática.

 

 

Como os países mais desenvolvidos abordam a questão da inclusão escolar? Essa realidade está muito distante do Brasil?

 

R: Nos países desenvolvidos percebe-se um suporte maior do governo, no que concerne a atendimentos da saúde e bolsas de auxílio. Mas ainda há obstáculos e o despreparo do professor é também percebido, além da postura superprotetora dos pais (fator comum) e a institucionalização.

 

 

Quantas crianças nosso país possui atualmente nessas condições e em quais tipos de deficiências?

 

R: Segundo o IBGE, cerca de 6,2% da população brasileira apresenta algum tipo de deficiência. Desse percentual, cerca de 700 mil são de estudantes matriculados no ensino público. É um número baixo, apesar de ter aumentado e vir aumentando no decorrer do tempo.

 

Ainda há muitas crianças em idade escolar fora da escola por falta de transporte, de acesso, de condições financeiras, por protecionismo dos pais, por não saber dos direitos da criança com deficiência, entre outros fatores.

 

 

Existem crianças que precisariam estar matriculadas, mas os pais preferem manter em casa por falta de estrutura escolar para recebê-las?

 

R: Sim. A inclusão acontece de forma lenta. A lei é recente, embora a presença de alunos com deficiência no ensino regular seja verificada há tempos, consolidada pela Declaração Mundial sobre Educação para Todos (1990), a Declaração de Salamanca (1994) e a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2006).

 

Embora muito tenha se discutido, garantido e posto em prática, nem sempre as condições de atendimento escolar satisfazem os pais, e estes acabam preferindo manter a criança em casa e buscar atendimento alternativo. Há também muito preconceito envolvendo a capacidade de aprendizagem dos alunos com deficiência e o desconhecimento de recursos possíveis. 

 

 

Quais os prós e contras dessa decisão?

 

R: Na minha opinião, há mais contras do que prós. Pode ser que o cuidado, de uma maneira geral, seja melhor, pelo fato da criança estar em casa, junto a pessoas conhecidas. Mas a socialização é um fator muito importante nessa questão e é também parte do aprendizado. Há sempre uma mudança para melhor quando a criança é inserida no contexto escolar, com a troca valorosa de saberes, do sentir, do agir. Na inclusão TODOS ganham. O preconceito se desfaz na sala, com a participação de todos. E da sala de aula, o aprendizado da convivência se expande para a sociedade.

 

Muitos casos em que se pensa não haver progresso, torna-se surpreendente quando se tem uma resposta no olhar, um sorriso. O aprendizado não está somente no ler e escrever, é muito maior e muito mais subjetivo que isso.

 

Sou e serei sempre a favor da criança na escola. Aprendendo e ensinando. Ninguém é melhor ou sabe mais do que o outro. Trazemos conosco saberes e habilidades diversas. É essa diversidade que nos faz crescer, aprender a respeitar o outro em suas especificidades, aprender a solidarizar-se e a ter empatia.  O desenvolvimento e o aprendizado acontecem nas trocas entre os pares.

 

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