27 de maio de 2019

|

por: ludens

|

Categorias: Novidades de Tratamento

A depressão na gestação e nos pós-parto: busca por ajuda é fundamental

Por Vivian Fernandes

A entrevista de hoje visa orientar mulheres e famílias sobre a depressão, um
fantasma que assombra e que pode assustar, mas que se bem tratado, pode ter
finais felizes.
Entenda sobre o assunto com a psicóloga clínica Vivian R. Fernandes*, que nos
concedeu uma entrevista exclusiva e de extrema importância para quem passa por
esse período ou pretende engravidar. Afinal, estar bem informado faz toda a
diferença na hora de atravessar os momentos difíceis.
1- Como a depressão se desencadeia no organismo da mulher?
Os estudos apontam que algumas formas da depressão são duas vezes mais
comuns em mulheres do que em homens. Cerca de 25% das mulheres
apresentarão ao menos um episódio depressivo ao longo da vida e a maior
diferença de incidência começa a aparecer a partir da adolescência. Tudo isso nos
leva a concluir que as oscilações dos hormônios femininos podem ter correlação
com a maior incidência da depressão em mulheres. Alguns especialistas acreditam
que a maior ênfase que as mulheres tendem a dar aos relacionamentos pode torná-
las mais vulneráveis emocionalmente e, portanto, mais suscetíveis à depressão.
Em qualquer pessoa, o desencadeamento da depressão pode vir a partir de fatores
internos ou externos, como períodos de transições importantes no ciclo vital
(adolescência, vida adulta, ingresso no mercado de trabalho, casamento,
maternidade/paternidade, aposentadoria) e mudanças inesperadas ou traumáticas
(perda de familiares, perda de emprego, separações, mudança de
cidade/estado/país, etc).

2- A gestante está mais propensa a desenvolver uma depressão? Se sim, quais
os motivos?
A gestação é um período de mudanças intensas na vida da mulher nas perspectivas
emocional, biológica, social e familiar. As alterações hormonais e as questões
emocionais advindas da gestação causam grande oscilação de humor, que podem
aumentar a ocorrência da depressão na gestação. É sabido que mulheres que
apresentaram depressão em outros períodos da vida têm maiores chances de
desenvolvê-la na gestação e/ou pós-parto.
3- Como a gestante que tem depressão deve agir para não se prejudicar e não
prejudicar o bebê?
A busca por ajuda é sempre o melhor caminho. Conversar com o obstetra sobre os
sentimentos pode colaborar para o encaminhamento adequado da perspectiva
médica/medicamentoso.
O pré-natal psicológico é um grande aliado neste sentido, pois busca abarcar a
perspectiva emocional da gestação: medos, culpas, expectativas, dificuldades no
relacionamento conjugal e familiar e a preparação para a grande transformação da
vida da mulher e do casal com a chegada do bebê, seja ele o primeiro ou o
terceiro/quarto bebê.
A importância da escuta e orientação adequadas, aliada a estratégias
medicamentosas seguras (quando necessário) são fundamentais para a saúde
emocional da mãe e para prevenção de casos mais graves de depressão na
gestação ou pós-parto. Vale lembrar que já há estudos que apontam que a
depressão na gestação impacta o desenvolvimento do bebê, trazendo maior risco
de parto prematuro e baixo peso, além de alterações no padrão de sono e
funcionamento global do sistema nervoso central.
4- Por que tantas mulheres desenvolvem depressão pós-parto?
Não se sabe ao certo. A principal conclusão tem sido a de que não se trata apenas
da depressão pós-parto, mas sim, de depressões que já estavam instaladas,
porém, menos intensas do que se apresentam no pós-parto. Grande parte das
mulheres que vivem a depressão pós-parto já viveram outros episódios depressivos
em outros momentos de suas vidas, muitas vezes sem o tratamento adequado. A
junção das oscilações hormonais com todas as mudanças na vida, trazidas com a
chegada de um bebê, tornam-se suficientemente grandes para evidenciar muitos
conflitos, sejam eles internos, de relacionamentos (conjugais, familiares),
existenciais e de identidade. Neste sentido, o acompanhamento psicológico se faz
de suma importância para ressignificar todas as transições e mudanças vividas com
a gestação e puerpério, a fim de que a mulher possa identificar-se nos novos
papéis que passa a desempenhar.
5- Uma vez instalada a depressão, qual o melhor caminho para essa mãe que precisa
cuidar do bebê e cuidar de si?
A busca por ajuda, sempre. Tratamento médico e psicológico são seguros para
todas as mulheres, na gestação ou amamentando. Há diversos protocolos seguros e
que trazem respostas extremamente satisfatórias; quando associamos medicação e
psicoterapia.

Além disso, a importância de buscar uma rede de apoio, como grupos de mães e
rodas de conversa fazem uma função importante no amparo à mulher/mãe vivendo
um puerpério difícil ou uma depressão pós-parto mais complexa.

*Vivian R. Fernandes é psicóloga clínica, atuante há mais de 10 anos com ênfase
na saúde materno-infantil e psicologia perinatal, na atenção psicológica à gravidez
e ao pós-parto; e ao suporte emocional ao luto durante todo o ciclo vital, mas
especialmente nas perdas gestacionais e perinatais.
Coordenou por mais de 4 anos projetos de promoção do protagonismo feminino
através da maternagem consciente, sendo reconhecida em 2012 pelo Prêmio
Objetivos de Desenvolvimento do Milênio Brasil, da ONU, no palácio do Planalto em
Brasília; no objetivo "Redução da Mortalidade Materno Infantil".
Promove grupos de heterovisão à profissionais de psicologia e da humanização do
nascimento. Atua como Psicoterapeuta na orientação familiar de pais, casais e
família; pré-natal psicológico e suporte emocional ao puerpério.
Apaixonada pela capacidade de ressignificação da vida através da maternidade, e
da maternidade consciente como promoção de cultura de paz.