23 de maio de 2019

|

por: ludens

|

Categorias: Novidades de Tratamento, Técnicas e Métodos

A Comunicação Suplementar e/ou Alternativa como ferramenta

Por *Nathalia Bertollotto, fonoaudióloga

Com o desenvolvimento dos filhos vem a expectativa dos pais em relação à fala e como eles irão se expressar. O fonoaudiólogo é o profissional especializado em distúrbios da comunicação e linguagem, podendo prevenir, avaliar, tratar e reabilitar aqueles que apresentam atraso, comprometimento ou distúrbio que não desenvolvem a fala.

Devemos diferenciar, principalmente, o conceito de fala e de compreensão. A criança pode muitas vezes entender e compreender as coisas e o contexto em que vive, porém, em alguns casos, ter dificuldade ou impedimentos na produção de fala. Não devemos permitir que as pessoas que não possuem “voz” (fala) sejam desconsideradas em suas vontades, seus desejos, pensamentos, sua personalidade e acima de tudo, suas potencialidades.

A fonoaudiologia busca, através de métodos, estratégias e recursos, restabelecer a comunicação para que o paciente consiga se fazer entender, mostrar quem é, contar suas histórias e evoluir. E conta com a Tecnologia Assistiva, uma área do conhecimento de característica interdisciplinar, que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivam promover a funcionalidade – relacionada à atividade e participação – de pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida. O objetivo é sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social. (Comitê de Ajudas Técnicas, Corde/SEDH/PR, 2007).

A Comunicação Suplementar e/ou Alternativa (CSA) é um recurso da área de Tecnologia Assistiva indicado quando a fala apresenta-se comprometida em sua inteligibilidade ou não se desenvolve, reduzindo consideravelmente a oportunidade de interação em diversos ambientes sociais. Dessa forma, mostra-se necessária outra forma significativa e funcional de comunicação.

Estudos conclusivos

Em minha pesquisa de mestrado, analisei o conhecimento e a utilização da CSA por coordenadores, professores especializados e pais de alunos público-alvo da educação especial da rede estadual de ensino na região de Campinas, a fim de verificar a demanda de capacitação, necessidade de parcerias e de serviços especializados.

Entende-se, portanto, que o uso de elementos que melhorem a comunicação pode ser um aspecto facilitador de práticas inclusivas, capaz de propiciar avanços na comunicação, interação social e aprendizagem daqueles que apresentam dificuldades desse aspecto.

A CSA utiliza estratégias que complementam ou substituem a linguagem falada, permitindo que a comunicação se estabeleça, e inclui o uso de símbolos pictográficos, gestos, expressões faciais, alfabeto, números e/ou linguagem de sinais (conforme a indicação para cada caso). Tais recursos podem estar dispostos em pranchas (baixa tecnologia), cadernos de comunicação ou em dispositivos computadorizados como tablet (alta tecnologia), com fala sintetizada ou digitalizada. Veja abaixo modelo de sistema pictográfico de comunicação em alta tecnologia (tablet – vocalizador) através de software brasileiro:

 

Indicação e aprendizagem

A indicação da CSA é de responsabilidade do fonoaudiólogo em conjunto com o terapeuta ocupacional, mas deve envolver a família e a escola no processo de escolha dos recursos e/ou estratégias para garantir a efetividade da comunicação nos diferentes contextos.

Deve-se considerar como a criança ou o adulto já se comunica, seja por meio de vocalizações, gestos, olhares, expressões faciais etc. Assim como suas habilidades motoras (função global e fina, mobilidade, postura, entre outras), sua rotina, seus interesses e processos de aprendizagem.

A aprendizagem do uso da CSA ocorre em etapas – de símbolos e do apontar, transitando do objeto real, miniatura, fotografias, desenhos coloridos, desenho em preto e branco, símbolos gráficos e por fim a escrita.

As pranchas são personalizadas e devem considerar as possibilidades cognitivas, visuais e motoras de cada usuário. Para definição da forma de seleção dos símbolos mais eficiente para cada pessoa, é imprescindível a avaliação do terapeuta ocupacional.

Pode-se selecionar o símbolo por seleção direta (apontar com o dedo ou outra parte do corpo), seleção pelo olhar (indivíduos com severas alterações motoras) ou por varredura, (emite um sinal quando mostrado o símbolo).

Estudos já comprovam que o uso da CSA não impede o desenvolvimento da fala e sim, é imprescindível para a interação e desenvolvimento das pessoas com distúrbios da comunicação. Atualmente é possível, através da CSA, avaliar o processo de ensino-aprendizagem e de linguagem dessas pessoas.

Existem profissionais da educação e reabilitação que ainda não possuem conhecimento e habilitação para trabalhar com a CSA. Nota-se que a indicação e implementação dos recursos de tecnologia assistiva ainda estão sendo feitas sem a efetivação de parcerias entre os envolvidos no processo: profissionais de educação especial, profissionais da reabilitação, aluno, professores e família. O que é fundamental.

A proposta é expandir o uso da CSA para além do universo dos atendimentos e intervenções dos profissionais da saúde.

A composição de uma equipe multidisciplinar é fundamental para apoiar e construir novas possibilidades de ação por parte dos diferentes agentes e para a efetivação e fortalecimento de uma nova dinâmica que valorize cada indivíduo e sua diversidade.

 

* Nathalia Bertollotto é Fonoaudióloga, Mestre em Saúde, Interdisciplinaridade e Reabilitação pela UNICAMP com enfoque na Comunicação Suplementar e/ou Alternativa. Experiência com avaliação de alunos com deficiência nas escolas e reabilitação.